O título

O TÍTULO

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“Arca de Palavras” faz referência à arca de madeira na qual o grande poeta Fernando Pessoa (Lisboa 13 de junho de 1888 – Lisboa 30 de novembro de 1935) acondicionou sua vasta obra, seu tesouro literário composto por milhares de anotações deixadas para a posteridade.

Embora tenha participado ativamente da vida intelectual e literária de sua época, havendo divulgado em revistas inúmeros poemas e textos em prosa, Fernando Pessoa publicou em vida apenas um livro em língua portuguesa: “Mensagem”, em 1934, um ano antes de sua morte. Em 1918 publicou em inglês, às suas custas, Antinous e 35 Sonnets e enviou exemplares a vários jornais britânicos, havendo recebido algumas críticas favoráveis, embora com reservas. 

Imagem da arca de Fernando Pessoa com sua estante de livros ao fundo e assinaturas de alguns de seus
heterônimos.

Seu reconhecimento teve início somente nas décadas de 1940 e 1950 depois que, anos após sua morte, foi aberta a arca e descoberto o “tesouro” deixado ali pelo poeta.

O conteúdo dessa arca – que hoje constitui o Espólio de Pessoa na Biblioteca Nacional de Lisboa – compreende mais de 25 mil documentos entre poesias, peças de teatro, contos, filosofia, crítica literária, traduções, teoria lingüística, textos políticos, horóscopos, rascunhos e anotações, tanto datilografados como manuscritos ou rabiscados quase ilegivelmente em português, inglês e francês. O Poeta escrevia em cadernos de notas, em folhas soltas, no verso de cartas, em anúncios e panfletos, no papel timbrado das firmas para as quais trabalhava e dos cafés que frequentava, em sobrescritos, em sobras de papel e nas margens dos seus textos antigos.

Pessoa escreveu sob dezenas de nomes. Chamou heterônimos os mais importantes destes «outros eus», dotando-os de biografias, características físicas, personalidades, visões políticas, atitudes religiosas e atividades literárias próprias.

Algumas das mais memoráveis obras de Pessoa escritas em português foram por ele atribuídas aos três principais heterônimos poéticos – Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos – e ao «semi-heterônimo» Bernardo Soares, enquanto muitos poemas e alguma prosa em inglês foram assinados por Alexander Search e Charles Robert Anon. Jean Seul, o solitário heterônimo francês, era ensaísta. Os muitos outros alter-egos de Pessoa incluem tradutores, escritores de contos, um crítico literário inglês, um astrólogo, um filósofo, um frade e um nobre infeliz que se suicidou. Havia até um seu «outro eu» feminino: uma pobre corcunda com tuberculose chamada Maria José, perdidamente enamorada de um serralheiro que passava pela janela onde ela sempre estava olhando e sonhando.

Ninguém fazia ideia de quão imenso e variado era o universo literário acumulado na grande arca onde o poeta ia guardando seus escritos ao longo dos anos.

Pesquisadores e estudiosos vêm organizando este imenso acervo e trazendo à luz o legado imortal do grande poeta.