Conto nº 2 - Chibata

Conto nº 2 - Chibata

Este canal do YouTube é dedicado exclusivamente ao áudio do texto abaixo. Ouça o texto na voz de Luiz Sampaio.

Chibata

          Meu irmão galopava bem. O cavalo dele era branco e muito alto, com uma crina comprida e descabelada que meu pai não se cansava de enaltecer. Eu não tinha um cavalo propriamente meu. Brincava em um meio cinza com pelos brancos, desbotado de velho, com dentes marrons que me ensinaram o que é ruminar. Por nome, Doiscorgo no dizer caipira do que achávamos seria Dois Córregos, porque o cavalo desde sempre fora do sítio do meu pai, delimitado por dois mínimos córregos que cortavam a várzea, povoados da ameaça de vermes terríveis que poderiam entrar organismo afora pela planta dos nossos pés e de girinos que a gente caçava para maldosamente brincar. Quieto, cabisbaixo, olhos tristes, Doiscorgo a bem dizer não galopava. Quando ensaiava algum ânimo eu me agarrava na sela, mão direita retesando a rédea para fazê-lo voltar ao semiequilíbrio do trote que me sacolejava, mas não sentia ameaça de me derrubar lá de cima. Meu irmão era gordo e, com aquele peso todo na sela, não cairia nem se o Estrelo empinasse com ele; eu não, era magrinho e senta, saltava, senta, saltava, ia socando que nem mão de pilão em dia de paçoca.

          Assim passamos um bom tempo, um a galope, outro a trote, até que a irmã rica de uma tia mandou de presente pra mim uma eguinha nova, filha de um puro sangue inglês e de uma égua lá da fazenda cheia de cavalos, cachoeiras, gado e café. Eu fiquei tão apaixonado! Abri em meu coração um lugar pra minha tia e a irmã dela, para sempre. Chibata era pequenina, gorducha, toda bem feita, redondinha, alazã, com o rabo castanho e a crina mais clara, dourada, bonita e sedosa, de dar vontade de não parar de pentear nunca mais. Um olhar amigo e um focinho aveludado, feito pra gente agradar e encher de cenoura, que ela adorava comer das minhas mãos fartas de carinho e atenção. Tantas coisas a Chibata me ensinou! Entre elas, (que susto!) aprendi a galopar.

         No sítio, meu pai plantava uvas em ruas de parreiras intermináveis que raiavam em curva de nível toda a colina ao lado direito da casa. Pois foi passeando no parreiral que Chibata sentiu-se de corrida e fez da rua de uva uma raia para o seu sangue inglês. De repente contraiu-se e disparou num galope desenfreado, rua adiante, sem nada que a pudesse deter. Pa-ta-la, pa-ta-la, pa-ta-la, parreira, parreira, parreira… Para Chibata! Tô caindo! Ai! Para! Vai me derrubar! Agarrei-me à sela com as duas mãos, a rédea esquecida, as pernas abraçando seu corpo como uma torquês. A cavalinha nova ia se assoberbando, acelerando, se animalando mais e mais, como se todos os puros-sangues do mundo galopassem com ela naquele momento, ali. Tô caindo! Para! Vou morrer! E Chibata arremetia na raia sem fim, meu peito doendo, barriga apertada, querendo estourar. Pa-ta-la, pa-ta-la… assim agarrado como um carrapato talvez eu não fosse cair… O ar zunia na testa, a crina voando, zuuuuuummmmm, Chibata criando cadência, pa-ta-la-pa-ta-lando, entrando num ritmo que até parecia normal. Quando o pavor começou a se acomodar, a rua chegou ao fim e Chibata, resfolegando, estancou. Escorreguei para a terra firme e, trêmulo, não fiz outra coisa, ali mesmo, entre as uvas, do que um cocô desesperado, inesquecível de alívio e libertação. Quando montei novamente, já não precisava coragem, porque medo não havia mais. A vontade daquele vento, de correr vendo tudo passar, fez com que eu tocasse Chibata com um ânimo que não era o meu. Galopamos daí para sempre, como estamos agora, pa-ta-la, pa-ta-la, sempre em frente, em memória, vendo a vida passar.

        Um dia, inesperadamente, meu pai foi ao sítio durante a semana e dormiu lá. Nos dois finais de semana seguintes, ele foi sozinho porque tinha uns negócios para resolver. Então meu pai me golpeou com a notícia, Luizinho, você precisa ser forte, a Chibata machucou o pé, teve uma doença terrível chamada tétano e morreu. Estanquei com o meu primeiro ensinamento de perda e solidão. Inscrevi aquela data na fotinho dela e a guardei no canto do porta-retratos da minha passada infância.

        Chibata foi como uma flor que, no auge das suas cores, uma tesoura cortasse e guardasse num livro para perpetuar.

       
        Luiz Sampaio
 

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